A palavra crise entrou de tal forma na rotina do dia-a-dia que só o facto de a ouvirmos constantemente já nos provoca algum desgaste. A verdade é que ela é uma realidade e não nos deixa outra solução que não seja contorná-la, com sabedoria.
A solução passa por enfrentá-la como um desafio e não como uma ameaça, através de algumas adaptações a vários níveis. Estas adaptações obrigam-nos a fazer mudanças nos nossos hábitos para tentar poupar ao máximo.
Precisamos de estar conscientes – e não existem quaisquer dúvidas – sobre o facto de que as crises, sejam estas de natureza financeira, económica, política ou social (e que se agregam naturalmente), também afetam de forma direta ou indireta, mas inequivocamente, a saúde na população.
Como Europeus, conhecemos os benefícios da tão “cobiçada” dieta mediterrânica (Sul da Europa) que tem sido objeto de estudo, onde a esperança média de vida é superior à dos que vivem no centro deste Continente.1
Temos uma excelente herança no âmbito da saúde. Precisamos de desenvolver estratégias, a nível individual ou em grupo, para que a supracitada esperança de vida, não venha a diminuir no futuro, devido a substituirmos os hábitos alimentares tradicionais, baseados em vegetais, leguminosas, cereais, azeite, por abundância de alimentos cárneos, doces e gordura animal.
Sem dúvida que somos privilegiados neste enquadramento histórico. Temos motivos para agir na promoção de hábitos saudáveis com alimentos simples, promotores de saúde, além de outros benefícios, em tempo de crise.
A palavra-chave é “agir”, através de instrumentos eficazes e adequados à realidade atual, com o objetivo de criar soluções novas para velhos problemas (entenda-se, hábitos erróneos). Sabemos que a saúde pública, como todas as artes sociais, faz-se fazendo, partilhando saberes vivenciados, informando, educando e argumentando de uma forma idónea, a nível individual ou em grupo, os benefícios tão simples, como, por exemplo:
Estes benefícios vêm ao encontro da crise e sem custos acrescidos, permitindo poupanças em dinheiro às famílias e à própria sociedade. Assim, precisamos de reforçar e de perceber o impacto positivo das nossas escolhas na prática de um estilo de vida saudável como prioridade no nosso quotidiano. Essas opções poderão ser fatores determinantes que serão sentidos não só no tempo presente, mas também no futuro.
A acessibilidade aos meios naturais é uma realidade para todos os seres humanos. Usá-los e partilhá-los promove não só a saúde física, mas também a saúde mental.
O conhecido médico Dr. Joan Sabaté afirma que nada pode tornar-se mais valioso para a nossa saúde do que sabermos alimentar-nos corretamente no nosso lar, prevenção imprescindível para preservar as nossas famílias do flagelo de múltiplas doenças, consumidoras de muitos recursos financeiros. Prevenir engloba vários verbos de ação, como capacitar, economizar, agir, contribuindo, assim, de forma decisiva para a edificação de comportamentos saudáveis. A incapacidade de economizar nas pequenas coisas é uma das razões de muitas famílias sofrerem a falta de outras coisas necessárias da vida.
O facto de cuidarmos eficazmente do nosso corpo, através de estilos de vida saudáveis, capacita-nos para o exercício da vontade, usando, da melhor forma, um órgão tão importante como é o nosso cérebro. “O ser humano é dotado da capacidade de decidir livremente para além das condicionantes hereditárias, e instintivas ou hormonais; e graças à força de vontade decide escolher um comportamento mais saudável, independentemente do que lhe apetece ou do que gosta. A força de vontade e a capacidade de fazer o que convém, nem sempre coincidente com o que apetece. Graças à força de vontade, o ser humano recupera o domínio de si mesmo e exerce um maior controlo sobre o corpo e sobre a mente. Desta forma, e não através da complacência com hábitos nocivos, se alcança a verdadeira liberdade e felicidade.”2
Sabia que o excesso de calorias afeta o estado de ânimo, o rendimento intelectual e a força de vontade?
Quando comemos “refeições copiosas, nas quais se ingerem mil calorias ou mais, provenientes de gordura animal, o resultado é:
Para compreender melhor estas evidências, e para reforçar ainda mais a ideia precedente, é importante compreender a espantosa atuação dos glóbulos vermelhos nas suas funções de transportadores de oxigénio e de glicose, através dos vasos sanguíneos. Os glóbulos vermelhos têm uma dimensão de 7 mícrons (0,007mm), e circulam por todo o organismo num processo normal. O seu curso é feito em vasos sanguíneos de grande e médio calibre, assim como nos capilares (vasos sanguíneos de pequeníssimo calibre, entre 0,003 a 0,005mm).
Nestes últimos, os glóbulos vermelhos, ao serem muito flexíveis, adotam a forma de discos circulares bicôncavos, deformam-se de tal maneira que se dobram sobre eles mesmos, organizando-se em fila apertada, para que o fluxo sanguíneo seja perfeito, nestes pequeníssimos vasos. Este processo permite o fornecimento de oxigénio e de nutrientes a todos os tecidos e células do corpo, nomeadamente ao cérebro.
Vários estudos demonstraram que uma ingestão excessiva de gorduras, acrescida de sedentarismo, após a refeição, favorece a acumulação e a permanência da gordura no sangue. Esta acumulação de corpos gordos no sangue provoca alteração no percurso dos glóbulos vermelhos, conduzindo a um fenómeno grave, chamado “aglutinação”, em que estes se colam uns aos outros e endurecem, impedindo assim a sua passagem pelos capilares.
Este processo é sentido, sobretudo, ao nível do cérebro – uma vez que este consome mais 25% de oxigénio e mais 30% de glicose do que todas as outras partes do corpo – onde existe um maior número de vasos de pequeníssimas dimensões.
Mas, afinal, poderemos perguntar, o que é que isto tudo tem a ver com a crise atual que estamos a viver? Entre muitas e diversificadas soluções possíveis, sublinho que precisamos de ser, a nível individual, agentes de mudança.
Não é fácil fazer escolhas saudáveis na sociedade atual, em que a produção alimentar está inextricavelmente ligada ao lucro. À medida que a nossa vida se acelera, gastamos menos tempo a preparar alimentos frescos e passamos a depender cada vez mais de refeições já preparadas por empresas mais preocupadas com o seu lucro do que com a saúde dos seus clientes.
Uma alimentação simples e equilibrada fica mais barata em todos os sentidos e predispõe-nos para sermos mais saudáveis, através de um corpo e de uma mente sãos, capacitando-nos para sermos mais úteis e eficientes na comunidade em que vivemos. A nossa determinação na mudança fará a diferença.
A maneira como vivemos hoje, determinará, em muitos casos, a saúde que teremos amanhã.
“Não seja espectador passivo da vida! Contribua para promover a sua saúde mental e a dos outros.” – Direção Geral de Saúde.
Laura Teixeira
Enfermeira Especialista de Saúde na Comunidade