Numa lista de 34 países da Europa, Portugal surge no nono lugar no que se refere à média anual de consumo de álcool puro per capita, com 13,43 litros. Esta é uma das leituras mais imediatas que se podem fazer dos dados revelados no relatório Álcool na União Europeia, da Organização Mundial de Saúde, com o patrocínio da Comissão Europeia.
Curiosamente, o continente europeu – o pretenso líder do saber – continua a liderar o consumo mundial de álcool, com uma média anual de 12,4 litros por habitante.
Os mapas e gráficos mostram também que Portugal é um dos países com maior número de acidentes na estrada que envolvem álcool e que é um dos poucos (no total, são cinco, numa lista de 29 países) a autorizar a venda de álcool a menores de 18 anos. Ao mesmo tempo, Portugal mostra ainda ser um dos países com mais abstémios, o que significa certamente que os que bebem, bebem muito. Na análise dos abstémios, Portugal aparece com uma impressionante percentagem de 18,6% dos homens e 32% das mulheres, quando a média europeia se fica pelos 5,6% e 13,5%, respetivamente.
O título do comunicado que resume o relatório da OMS divulgado recentemente, é revelador do padrão europeu: “Os adultos na Europa consomem três bebidas alcoólicas por dia.” As contas são simples: uma média de 12,5 litros de álcool puro por ano é o equivalente a 27 gramas por dia, o que, por sua vez, é o equivalente a três bebidas por dia. O documento avalia os consumos, mas realça sobretudo os efeitos do álcool na saúde dos Europeus (há mais de 40 problemas de saúde associados e um em cada dez cancros nos homens está relacionado com o álcool), concluindo que é possível evitá-los. Citando autoridades:
“É uma realidade infeliz, o facto de o álcool causar cancro. De facto, o álcool é responsável por aproximadamente um em cada dez cancros na UE. Consumidores de álcool têm o direito de serem informados desta realidade (…). Estes consumidores podem substancialmente reduzir o seu risco de cancro bebendo menos e menos vezes” (Dr. Nick Sheron, Royal College of Physicians).
“O consumo de álcool está associado a um risco superior de cancro da próstata. De acordo com os resultados do estudo, aqueles que bebem mais de sete bebidas por semana têm 21% mais possibilidades de terem cancro da próstata e 34% de terem cancro da próstata de alto risco” (Renal and Urology News – 2012. American Society of Clinical Oncology, the American Society of Radiation Oncology, and the Society of Urologic Oncology).
Particularmente no caso da mulher, essa mesma OMS diz que “por cada bebida comum diária parece haver um aumento de 11% de risco de cancro da mama pós-menopausa. Um estudo envolvendo mais de 320 000 mulheres sugere que duas ou mais bebidas por dia aumenta em 41% a possibilidade de desenvolver cancro da mama” (Department of Nutrition, Harvard School of Public Health, Boston, Massachusetts).
Entre as múltiplas estratégias para minimizar os inúmeros estragos provocados pelo álcool (nos próprios ou em terceiros), aponta-se para a necessidade de dificultar o acesso dos mais jovens às bebidas. Neste preciso ponto – e apesar da intenção manifestada pelo Governo de aumentar para os 18 anos a idade mínima –, Portugal permanece num restrito grupo de cinco países (entre 29) que mantém os 16 anos como idade-limite para a compra de álcool (Malta colocou o limite nos 17 anos), independentemente de se tratar de cerveja, vinho ou bebidas espirituosas e do local de venda.
O secretário de Estado da Saúde reafirmou, em 2012, a vontade de legislar de forma a proibir a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos e de reduzir a taxa de alcoolemia para os condutores. Já o tinha afirmado em Novembro de 2011, mas sem adiantar mais pormenores sobre esta medida, nomeadamente quando seria aplicada e se abrangeria todos os tipos de bebidas alcoólicas e locais de venda.
A verdade é que só – do mal o menos – no primeiro dia de 2014 é que as decisões avançaram. A nova taxa de 0,2 gramas de álcool por litro, para condutores em regime probatório (carta há menos de três anos) e profissionais, entrou em vigor. Os restantes condutores continuam com uma tolerância maior. Porquê? É verdade que “há dados que mostram que há sete vezes mais mortalidade em condutores abaixo dos 20 anos, quando conduzem com 0,5 gramas, quando comparados com 0,2 gramas”. Isso não invalida o risco da presença do álcool no sangue, nos restantes condutores, particularmente na mulher que tem um metabolismo do álcool mais lento.
O relatório divulgado pela OMS valida aquela estratégia anunciada pelo Governo e avança ainda com outro tipo de medidas capazes de fazer diminuir o consumo de álcool e, desta forma, minimizar os seus efeitos. Aumentar as taxas para fazer subir o preço das bebidas e regulamentar a publicidade são algumas das propostas. O relatório aponta ainda para a necessidade de monitorizar a eficácia das leis, tais como o limite de idade para a compra de álcool através de ações inspetivas que coloquem o sistema à prova.
Colocar o sistema à prova? Se fôr para obter os mesmos resultados obtidos com a luta antitabágica, o resultado promete ser mais um insucesso. E as “leis secas” são disso um bom testemunho também. Espantoso é ver as cadeias televisivas a reportarem as viagens de finalistas para Espanha – publicidade indireta – em que a ingestão absurda e excessiva de álcool é encarada como uma oportunidade de vida, para a “curtir” e viver. Não seria mais fácil começar por evitar esta propaganda inusitada e disparatada de ver jovens a beberem até caírem para o lado para gaudio dos espectadores – pais? – que “entendem” as imagens porque estamos perante jovens? E o que é feito da legislação que impede a venda de bebidas alcoólicas a menores de 18 anos? Se antes dos 17/18 anos a afirmação é consensual de que o fígado não está preparado para lidar com o álcool, determinando, por isso, que a permanência do mesmo mais tempo em circulação no sangue expõe à morte neurónios imprescindíveis, como entender este “olhar para o lado” de quem pode fazer alguma coisa? Haverá razões escondidas para isso?
De resto, sobre o retrato do álcool na Europa, a OMS revela que o consumo se mantém estável e que na Europa Ocidental e do Sul tem mesmo diminuído. Portugal surge no grupo da Europa do Sul, região que continua a ser exceção no mapa europeu, ao preferir o vinho à cerveja. Haverá alguma vantagem no consumo da cerveja? Será a de ela conter menos álcool? Será que as pessoas não sabem que sendo ela servida em maior volume a quantidade de álcool final é igual ou maior? Não nos iludamos.
Já no que se refere às mortes provocadas pelo álcool (um em cada sete homens e uma em cada 13 mulheres com idades entre os 15-64 anos morreram por causa do álcool), a Europa do Sul tem os valores mais baixos (uma taxa de 30 homens e 10 mulheres por 100 mil habitantes) perante uma média europeia que é de 57 homens e 15 mulheres.
A maior nódoa de Portugal surge no capítulo dos acidentes na estrada que envolvem álcool, com o país a destacar-se entre os que têm piores resultados. Surpreendente, também, é ler que a Organização Mundial da Saúde afirmou, em 2007, que “sob o ponto de vista da saúde pública e clínico, não existe benefício em promover o consumo de álcool como uma estratégia preventiva”. Porque se vê, por parte dos responsáveis pela Saúde, tanta recomendação para o consumo “moderado” de vinho como promotor da saúde. Que saúde? Certamente não a dos bebedores...
Vamos continuar a iludir-nos com a máxima de que beber com moderação é saudável? O que é isso de beber saudável? Em Portugal “só” temos 1 800 000 portugueses bebedores excessivos e doentes alcoólicos crónicos…“Quem bebe álcool, mesmo nas menores quantidades, tem um volume cerebral menor do que as pessoas que não bebem, de acordo com um estudo de Carol Ann Paul da Universidade de Boston, nos EUA, publicado na revista científica Archives of Neurology.
Apesar de um pequeno encolhimento no cérebro ser normal com a idade, quantidades maiores de redução em algumas áreas já foram ligadas à demência. Esta pode ser uma boa explicação para tanta incoerência que se vê por este nosso retangulo à beira mar plantado.
Alberto Pereira da Silva
Médico