Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), as doenças não transmissíveis (DNT) são as principais causas de morte em todo o mundo, sendo responsáveis por mais de 36 milhões de mortes todos os anos, correspondendo a mais de 60% do total de mortes. As DNT incluem um espectro alargado de doenças, habitualmente doenças com longa duração, progressão lenta e necessidade de tratamento permanente.
Os principais grupos de DNT são: doenças cardiovasculares (como o enfarte agudo do miocárdio e o acidente vascular cerebral), o cancro, as doenças respiratórias crónicas (como a asma e a doença pulmonar crónica obstrutiva), a diabetes e as perturbações da saúde mental.
Embora constituam um grupo relativamente pequeno de doenças, as DNT têm um impacto enorme. No nosso país estas doenças são responsáveis por cerca de 86% das mortes (quase nove em cada dez mortes) e 77% dos encargos com as doenças. Embora sejam doenças classicamente associadas a escalões etários mais avançados, são responsáveis por uma percentagem significativa das mortes prematuras (antes dos 70 anos). O impacto destas doenças vai muito além da mortalidade e dos anos de vida perdidos. São responsáveis por custos económicos significativos, quer pelas despesas relacionadas com o seu tratamento (geralmente tratamentos prolongados e caros), quer pela redução da atividade laboral e da produtividade e, mesmo, pela perda de emprego. Têm um impacto significativo na qualidade de vida, sendo a principal causa de incapacidade.
Com o envelhecimento previsto da população mundial, as mortes relacionadas com estas doenças irá aumentar substancialmente, podendo chegar aos 52 milhões em 2030.
Embora constituam um espetro alargado de doenças, partilham fatores de risco em comum, sendo doenças primordialmente relacionadas com o estilo de vida. Os principais fatores de risco em causa são: uso de tabaco, sedentarismo, alimentação não saudável e consumo de álcool. Estes fatores de risco levam ao aparecimento de outros fatores de risco, a que podemos chamar secundários: hipertensão arterial, excesso de peso/obesidade, hiperglicemia e dislipidemia. Neste artigo vamos prestar especial atenção aos quatro primeiros fatores de risco referidos.
Tabaco
O tabaco é responsável por quase 6 milhões de mortes em todo o mundo, todos os anos, incluindo 600 000 mortes devidas à exposição passiva ao tabaco em não-fumadores. Em Portugal, segundo dados da Direção Geral da Saúde (DGS), publicados em 2013, cerca de 10 000 pessoas morrem anualmente devido ao uso do tabaco, correspondendo a 10% da mortalidade global na população acima dos 30 anos. O mesmo documento da DGS refere que, em 2004, o tabaco terá sido responsável por uma em cada três mortes por doenças respiratórias, uma em cada cinco mortes por cancro, uma em cada dez mortes por doenças isquémicas do coração.
Exercício físico
O sedentarismo é responsável por cerca de 3,2 milhões de mortes todos os anos, em todo o mundo. Foi identificado como o quarto fator de risco para a mortalidade global. Portugal é o país da Europa com maior taxa de sedentarismo (cerca de 70%). A prática de atividade física moderada, durante cerca de 150 minutos por semana, reduz o risco de doença isquémica do coração em cerca de 30%, de diabetes em 27% e de cancro do cólon e da mama em cerca de 21 a 25%. A prática de exercício físico também reduz o risco de obesidade, AVC, hipertensão arterial, depressão e outros tipos de cancro. A prática de exercício físico melhora os níveis de colesterol e de triglicéridos, melhora a saúde dos ossos, reduz o risco de fraturas, melhora a qualidade do sono, reduz o stresse e a ansiedade e melhora a qualidade de vida. Para obter maiores benefícios com a prática de exercício físico, a OMS recomenda a prática de 300 minutos de exercício físico moderado por semana (repartidos ao longo da semana) ou 150 minutos de exercício físico com intensidade moderada a vigorosa.
Alimentação não saudável
Todos os anos, cerca de 1,7 milhões de mortes podem ser atribuídas a um consumo inadequado de frutas e vegetais. Recomenda-se o aumento do consumo de frutas, vegetais, legumes, cereais integrais e oleaginosas e a redução do consumo de sal, de açúcares simples e de gorduras, evitando o consumo de gorduras saturadas e de gorduras hidrogenadas (presentes, sobretudo, em alimentos de origem animal e em alimentos processados). O consumo destes tipos de gordura foi associado a um maior risco de doenças cardiovasculares, diabetes mellitus tipo 2 e vários tipos de cancro. Intimamente relacionados com uma alimentação não saudável e com o sedentarismo estão a obesidade e o excesso de peso, que são responsáveis, anualmente, por cerca de 2,8 milhões de mortes em todo o mundo. O excesso de peso e a obesidade aumentam o risco de doenças cardiovasculares, de vários tipos de cancro, de diabetes e de depressão. Estima-se que cerca de 27-39% dos cancros poderiam ser prevenidos, melhorando a dieta, a atividade física e o peso/composição corporal.
Consumo de álcool
Todos os anos, cerca de 2,3 milhões de mortes são atribuídas ao consumo de álcool. Cerca de metade destas mortes ocorrem devido a DNT. O consumo de álcool está diretamente relacionado com o aumento de risco de alguns cancros, doenças cardiovasculares, doenças do fígado e do pâncreas e diabetes. Recentemente, um estudo publicado no British Medical Journal concluiu que cerca de 10% de todos os cancros nos homens e cerca de 3% dos cancros nas mulheres podiam ser atribuídos ao consumo de álcool. Foi encontrada evidência de que mesmo o considerado consumo moderado de álcool aumenta o risco de vir a ter um cancro.
Conclusão
A consciência de que a principal arma que temos contra as DNT é a sua prevenção com a prática de um estilo de vida saudável, e não o seu tratamento depois de estabelecidas, tem vindo a interessar a comunidade científica neste assunto. Em julho de 2014 terá lugar a II Conferência Global sobre Saúde e Estilo de Vida em Genebra, na Suíça, cujo tema principal será precisamente as DNT e a sua prevenção. William Jennings Bryan disse o seguinte: “O destino não é uma questão de sorte, é uma questão de escolha, não é algo a esperar-se, é algo a conquistar-se.” As escolhas que fazemos no dia-a-dia, os hábitos que fomos e vamos adquirindo ao longo da vida vão ter grande influência no nosso futuro. Um estilo de vida saudável é um investimento não só na nossa longevidade, mas, também, na nossa qualidade de vida e na nossa felicidade.
Rute Ferreira
Médica